Estrela da Manhã- Primeira Aula – Módulo Eclesiologia – 1° semestre de 2018

IGREJA – UMA VISÃO BÍBLICA

Por Fabio Marchiori Machado

Sem sombra de dúvida, vivemos num período de intensas mudanças sociais, econômicas, tecnológicas e de costumes. Talvez só exista um paralelo semelhante com a época dos movimentos renascentistas e iluministas a partir do séc. XVI.

Normalmente estas épocas de grandes mudanças trazem consigo muitos questionamentos à coisas pré-estabelecidas, em todas as esferas, incluindo o meio cristão. Neste sentido, um dos elementos mais questionados é a instituição “Igreja”. Consequente a isso, novos modos de “ser igreja” tem surgido. Nosso papel, nesta série de estudos, será analisar o que o texto bíblico tem a nos ensinar sobre eclesiologia – o termo técnico para falar da teologia da Igreja – e como isso viria em contraposição aos novos rumos adotados por um grupo significativo de cristãos.

 

Novo Tempo, Novas Maneiras

Não tenho a intenção, neste momento, de ser exaustivo quanto aos conceitos a respeito das novas estruturas eclesiásticas (se assim pudermos chamá-las) que vêm surgindo nas últimas décadas. Meu intuito é apenas apresentar os três grupos que considero terem maior impacto neste novo cenário. São eles:

1) Desigrejados – Este é o grupo que mais cresceu nos últimos tempos. Em termos gerais, é formado por cristãos que entendem não haver necessidade de serem membros de uma igreja local ou denominação para praticarem sua fé. Tem a visão de que a própria pessoa (indivíduo) é a igreja de Deus e que assim qualquer ato de comunhão seria mais um propósito social do que religioso.

2) Igreja Digital – Nos últimos anos tem se avolumado o número de igrejas locais que transmitem suas atividades pela internet, e de pastores, pregadores e teólogos com canais de divulgação, principalmente no Youtube e Facebook. Munidos de material de sobra, alguns cristãos entendem que não precisam se deslocar até um local para participar dos serviços. Entendem que esta é uma transformação válida para a igreja, que vem mudando seu modo de operar do “analógico” para o digital, como muitas outras atividades do nosso cotidiano.

3) Igreja Mercado – Esta é uma nomenclatura de minha autoria (penso eu!?!). Eu a uso para descrever um fenômeno que vem ocorrendo dentro de nossas igrejas – o cristão consumidor. O humanismo dos últimos tempos trouxe grande progresso para a humanidade, sem sombra de dúvida. No entanto, creio que este movimento criou uma centralidade tamanha na figura humana, que fez com que, pela primeira vez na história, o bem individual estivesse acima do bem comum (mesmo que não explícito, mas latente). E este individualismo fez com que muitos cristãos não compreendessem mais a igreja como um local de serviço e adoração, mas certamente um local onde ela (pessoa – indivíduo) vai se servir de algo, como uma palavra de alento, um “recarregar de bateria” e até mesmo uma sensação de segurança espiritual.

Que fique claro que cada movimento tem seus defeitos, mas também suas qualidades. É óbvio que a internet tem sido uma ferramenta muito importante para pessoas que têm dificuldades físicas para ir ao culto (eu mesmo já fiz uso desta ferramenta algumas vezes) e de evangelização. Como também não há pecado nenhum em buscar alívio para as angústias cotidianas na igreja. O problema está em como estes grupos enxergam o papel da igreja como um todo.

 

Não Confunda

Antes de darmos andamento a este estudo, existe uma distinção que devo fazer. É muito comum as pessoas confundirem os conceitos de Igreja e Reino de Deus. Mesmo que você não pense assim, acredite, há muitos cristãos que veem ambos como sendo a mesma coisa, como a mesma instituição, de apenas nomes diferentes. Mas não! Reino de Deus é algo diferente de Igreja, apesar de estarem coligadas de certa maneira. Vamos definir cada um, de maneira rápida, para podermos entrar no objetivo da nossa lição.

O Reino de Deus é o nome que damos ao conjunto de todas as coisas criadas, desde uma simples abelha até uma estrela distante, em um local muito distante, e que estão debaixo do governo de Deus.

A Igreja é o povo escolhido por Deus, eternamente, para atuar como a agência, que milita em favor do Reino, neste plano da criação que vivemos. Ou seja, a Igreja não é o Reino. Ela está no Reino.

 

O Conceito de Igreja

A palavra “igreja” vem do grego ekklesía e quer dizer, basicamente, “assembleia”. Ekklesía era a palavra grega usada para descrever as convocações para reuniões públicas populares.

Num contexto bíblico, o primeiro uso da palavra foi na Septuaginta – tradução do Antigo Testamento (AT) do hebraico para o grego. Ekklesía aparece quase 100 vezes na Septuaginta, quase sempre traduzindo a palavra hebraica qărāl, que em sua maioria era usada para descriminar a reunião do povo escolhido de Deus, principalmente para atos público-religiosos. É deste uso que vem o conceito adotado pelos autores do Novo Testamento (NT) para a utilização da palavra ekklesía.

Poucos são os livros do NT em que não aparecem o termo ekklesía. São eles:

  • Os evangelhos de Marcos, Lucas e João
  • 2a Timóteo
  • 1 e 2a Pedro
  • Tito
  • Judas
  • 1 e 2a João

Em todos os outros livros do NT há ocorrência dela. Nas passagens em que a palavra aparece, seu uso é diverso. Alguns exemplos são: o uso para descrever a igreja em Jerusalém (At 8.1), a igreja em toda a Judéia e também ao Israel do AT ( At 7.38), ao povo que Jesus comprou com seu sangue (At 20.28), como referência a uma localidade (Rm16.1), a um grupo de cristãos reunido em uma casa (Rm 16.5) e até a igreja em todo mundo (Rm 16.23). Com frequência, ekklesía aparece acompanhada das locuções adjetivas de Deus, de Cristo, do Senhor e etc. Por fim, o uso mais importante da palavra (se me permitem assim definir) encontra-se nas epístolas irmãs de Efésios e Colossenses. Nelas, toda uma doutrina mais específica da igreja, bem como a aplicação prática de tais é desenvolvida.

Assim sendo, podemos estabelecer, a partir de tudo que já vimos até aqui, que o conceito de igreja, oriundo da visão bíblica, seja a reunião do povo escolhido de Deus, na sua totalidade ou em partes, para o serviço em favor do Reino.

 

A Igreja do NT e a Continuidade do Israel do AT

Esta é uma questão que levanta muitos debates dentro da igreja e dos meios teológicos. Afinal, a Igreja é a continuidade do Israel do AT? A minha resposta é que sim e tentarei apresentar alguns pontos que me fazem crer desta maneira.

A primeira questão é que não consigo ver uma ruptura entre o AT e o NT. Várias figuras do AT tem uma “continuidade modificada” no NT. Exemplifico. A adoração, antes centrada na figura do Templo, no NT é transferida para a pessoa de Cristo. Os apóstolos do NT se viam como a continuidade dos profetas do AT. E no caso da igreja, também verificamos esse mesmo padrão. Quem é o povo escolhido no AT? Israel. E no NT? A igreja de Cristo, composta de judeus e gentios crentes. Você entenderá melhor isso no meu próximo argumento.

Continuando, em segundo lugar, desde Gn 3.15 temos a clara percepção que Deus estabelecerá um grupo de seres humanos que prevalecerá sobre nosso maior inimigo: a morte eterna! Este povo é retratado como uma linhagem que levará até aquele que “pisará na cabeça da semente”. Em suma, tanto o AT como o NT apontam seus holofotes para apenas uma pessoa: O messias prometido, Jesus Cristo. Tanto aqueles que foram salvos no período AT estavam fundamentados, por fé, na esperança do Messias, como também os que foram salvos, e ainda hoje são, depois da vinda de Jesus, tem sua fé fundamentada na mesma promessa.

Para finalizar a minha breve explicação, quero lançar mão do texto de Rm 11.11-24 (existem muitos textos que poderia usar para fundamentar minha posição, mas o espaço destinado a este artigo me limita). Neste texto vemos que o fato de uma pessoa ter nascido israelita, não traz garantia de pertencimento ao povo escolhido de Deus. O que o faz, de fato, é estar ligado a Cristo. Esta perícope de Romanos apresenta quatro tipos de personagens:

1. Israel natural – Aqueles que nasceram hebreus são a oliveira cultivada.

2. Os judeus incrédulos – São os ramos naturais que foram cortados. Situação que vemos facilmente em vários outros textos. São os judeus apóstatas que não estavam fielmente ligados a Cristo.

3. Os judeus crentes – Os ramos bons que permanecem ligados por causa da sua fé no messias.

4. Os gentios crentes – São os ramos bravos que são enxertados na oliveira boa, posteriormente.

Perceba que Paulo não descreve duas oliveiras. Ou mesmo que plantou uma oliveira nova. A oliveira é apenas uma e a mesma desde sempre, a saber, Cristo, seja no AT ou no NT. A verdade é que todos são herdeiros da semente de Gn 3.15, gentio ou judeus. E não há nenhum caráter de separação entre os grupos do AT e do NT, ou até mesmo de substituição de Israel pela igreja. Isso seria um erro, visto que, na visão bíblica, seguir a Cristo é a razão última de ser judeu.

 

É Visível?…É Invisível?…

Apesar das nomenclaturas “Igreja Visível” e “Igreja Invisível” serem muito difundidas no meio cristão, estas não aparecem diretamente no texto da Bíblia. Todavia, são conceitos implícitos nas Escrituras, e logo são úteis para compreendermos a extensão daquilo que chamamos de Igreja.

Eu penso que a fonte mais confiável para entendermos esta questão seja a Confissão de Fé de Westminster (CFW) em seu capítulo XXV.

A CFW versa que a Igreja Invisível é a descrição da eternidade da igreja. Ela existe desde sempre no coração de Deus. Seu alcance é todo o universo e é composta pelo total de eleitos do Senhor que já viveram, os que vivem hoje e aqueles que existirão no futuro. Todos estes são reunidos em um só corpo tendo Cristo como cabeça. Por vezes, é conhecida como a Igreja Triunfante.

A Igreja Visível são as pessoas cristãs, eleitas por Deus, da presente era, que estão debaixo do Evangelho. Não é restrita a uma nação, visto que seu alcance é universal, também. É a atual reunião daqueles que professam a Cristo e o testemunham pelo mundo inteiro. A estes, Cristo deu a missão de serem guardiões e proclamadores do evangelho, para a edificação da igreja e aperfeiçoamento dos santos. É também conhecida como Igreja Militante, por causa do seu caráter empreendedor.

 

Mt 16.13-18 – A Igreja de Cristo

Para finalizar nosso estudo, gostaria de discorrer um pouco sobre este pequeno texto em Mateus. Ele é importante porque nele é que temos a primeira ocorrência de ekklesía no NT. Além disto, é o momento que Cristo deixa claro a instituição da sua Igreja e o papel dos cristãos diante dela.

Como este é um texto que no decorrer da história produziu uma série de controvérsias, principalmente por ser a base textual da instituição do papado pela Igreja Romana, vou procurar me concentrar em aspectos pouco observados, apesar de importantes.

Uma das linhas interpretativas deste texto, que inclusive eu compartilho, estabelece que a “pedra” que Cristo irá fundamentar sua igreja é a confissão de Pedro. Pedro e sua fala são os elementos centrais deste pequeno relato. E isso não é por acaso, em minha opinião, pois a base da existência da igreja, como corpo reunido, está na profissão de fé em “Cristo, Filho do Deus vivo” (v.16). Ou seja, sem esta confissão aquilo que falamos até agora “ser igreja” perde totalmente seu sentido.

Outra questão importante neste sentido está na procedência da confissão de Pedro. O verso 17 é claro em afirmar que Pedro não conseguiu reconhecer Jesus como Cristo por méritos próprios. Ao contrário, ele só pode fazê-lo porque a Deus aprouve revelar, em seu entendimento, tal ponto. Ou seja, Pedro só pôde compreender que aquele que estava diante dos seus olhos era o Cristo porque Deus descortinou a capacidade de compreensão na mente do apóstolo. Logo, nenhum cristão deve nutrir qualquer sentimento de orgulho, ou qualquer outro mau hábito, por ser parte desta ou daquela igreja. Ou até mesmo se sentir superior por ser um cristão. O fato é que ele só está lá por obra da misericórdia de Deus, e nada mais. E esta é uma marca peculiar da igreja: ser reflexo da manifestação maior da misericórdia do Senhor.

 

Conclusão

Por mais que seja moderno, e hoje somos tentados a isso, devemos questionar qualquer desejo de sermos igreja longe da igreja. Penso que ficou bem claro que a igreja é reunião de pessoas escolhidas por Deus, fisicamente, em um local, para atividades de edificação e promoção do Reino de Deus, crescimento dos santos e auxílio aos necessitados.

De fato, eu não “sou igreja” como indivíduo. Só sou igreja quando me alio ao “nós”. Nós somos igreja! Esta é a visão bíblica. Nos próximos estudos desenvolveremos ainda mais o tema.

Finalizo desejando que possamos viver esta verdade bíblica, grato pela misericórdia de Deus, sendo benção onde Ele nos chamar a servir, por glória do Seu santo nome.

Deus o abençoe!

Fabio Marchiori Machado

*Membro da IP de Vila Formosa e professor da sala Estrela da Manhã (36 a 55 anos)